O Sagrado no Candomblé: Uma jornada de fé e ancestralidade

A religião não bateu à minha porta. Ela nasceu comigo.
O Candomblé não foi uma escolha racional, nem uma resposta a um momento de dor — foi uma reconexão visceral com minhas raízes e com a energia que sempre pulsou em minhas veias. Por muito tempo, caminhei entre a dúvida e o medo, cercado por olhares que julgavam o que não compreendiam. A intolerância tentou calar o meu tambor interno, mas quanto mais tentavam me afastar, mais o Axé me puxava de volta. Este texto é a minha jornada de resgate, força e identidade. É sobre como os Orixás moldaram não apenas minha fé, mas o homem que sou hoje.

1. O Chamado da Ancestralidade

A religião entrou na minha vida como quem chega sem pedir licença, mas com a autoridade de quem já habitava minha alma. Desde os sete anos, eu já circulava pelos espaços sagrados (terreiros) guiado pelos meus avós. No início, era o encanto infantil: as cores, o som dos atabaques, o mistério.

Aos quinze anos, esse encanto amadureceu. Eu já não apenas assistia; eu participava dos Xirês (rodas de dança para os Orixás) e sentia a energia vibrar na pele. Entendi ali que o Candomblé não é uma religião de "ir", é uma religião de "ser".

2. O Portal do Terreiro

Lembro do arrepio que percorreu minha espinha na primeira vez que pisei conscientemente em um terreiro como filho, não como visitante. O cheiro das ervas (macaia), a vibração do couro do atabaque e os cânticos em iorubá me envolveram.

"O terreiro não é apenas um espaço físico; é um pedaço da África recriado, um portal onde o mundo material e o espiritual se abraçam."

Foi ali que tive a certeza: eu havia voltado para casa.

3. A Busca pela Minha Verdade

Minha jornada não foi linear. Passei por um período que muitos chamam de "pular de casa em casa", mas eu chamo de peregrinação. Minha alma estava inquieta. Na minha cidade, Propriá, predominavam outras linhas espirituais, mas meu coração batia no ritmo do Ketu.

Enfrentei decepções. Vi sacerdotes tentando "escolher" meu santo como se escolhe uma roupa. Mas Orixá não se escolhe; Orixá nos escolhe no ventre. Segui firme, mesmo quando a família se afastou e a intolerância bateu forte.

4. De Belofá: O Encontro com o Sagrado

Até que encontrei a casa certa. Meu atual Pai de Santo, com seriedade e jogo de búzios fundamentado, revelou minha essência: sou de De Belofá (De Danadana). Naquele momento, o quebra-cabeça da minha vida se montou.

Em 20 de março de 2022, vivi meu renascimento no Roncó (quarto sagrado de iniciação). Minha confirmação não foi apenas um ritual; foi o dia em que o Júnnior menino deu lugar ao homem de fé.

Primeira Puxada Da Saída Puxada Do Uruko Momento sagrado no terreiro
Primeira Puxada Da Saída

5. A Dúvida do Iniciante: "Será que sou rodante?"

Todo filho de santo já se perguntou: "Será que é coisa da minha cabeça?". Entender a mediunidade é um processo. Aprendi na prática a diferença entre os dois estados:

Consciente

Você sente tudo. Ouve os cânticos, reconhece as pessoas, mas perde o controle motor. É como ser um passageiro no próprio corpo.

Inconsciente

O apagão total. O Orixá assume 100%. Você acorda depois sem memória do que aconteceu, confiando apenas no relato dos irmãos.

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6. Erê: A Sabedoria da Inocência

Muitos veem o Erê apenas como a criança que brinca e pede doces. Eles estão enganados. O Erê é o mensageiro mais puro do Orixá. O meu Erê, o grande Azulão, me ensinou que a pureza abre portas que a força bruta não consegue.

Foi ele que, com uma promessa simples, me trouxe meu primeiro emprego. Ele é a alegria que equilibra minha vida, a lembrança de que a fé também precisa de sorrisos.

7. Exu: Movimento e Proteção

É hora de desmistificar: Exu não é o diabo. Exu é caminho. Exu é a energia cinética do universo. Sem Exu, nada se move, nada acontece.

Meu guardião, Exu Sete Porteiras, é a prova disso. Ele não é bagunça; ele é disciplina. Ele não é trevas; ele é quem enxerga no escuro para que eu possa caminhar na luz. Ele me protegeu de armadilhas que eu nem sabia que existiam. A quem tem preconceito, eu só ofereço o meu silêncio e a minha axé, porque quem caminha com Exu nunca anda só.

Gratidão ao meu Babalorixá

Ao meu pai Paulo Cesar, minha eterna gratidão. Sua condução firme e amorosa foi a bússola que me guiou até minha verdadeira essência.

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Júnnior MonZart

Escrito por

Júnnior MonZart

Desenvolvedor web, criador de conteúdo e fundador do MonZart.com.br. Minha missão é simplificar o marketing digital e ajudar você a monetizar seus projetos na internet.

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